terça-feira, 4 de junho de 2013

Quarto de Hotel

 
Aqui, neste quarto de hotel, distante de tudo e de todos, faço o exercício da solidão ou a prática do diálogo interior, que é o monólogo d’alma. Sou ao mesmo tempo duas pessoas: uma que pergunta, apenas, e outra que responde, somente. Rejeito as companhias que tenho, os trovões e os relâmpagos nos céus de Belo Horizonte e vou à janela convocar parceiros para a longa jornada do absolutamente nada. Afinal, os programas de televisão não passam dos desenhos inteiramente desanimados e dos filmes de monstros. Nenhum diretor de TV considera, com razão, que no horário da tarde um marmanjo qualquer possa ligar o receptor. Ora, cheguei com 12 horas de antecedência e não há o que fazer, senão isso, refletir e olhar os ares do mundo. Há gente, todavia, como posso identificar, nos arredores do imenso prédio em que me encontro. À direita e à esquerda, em frente, especialmente: cumprem todos as rotinas do dia-a-dia das coisas.
 
Uma senhora muito velha, a jogar baralho, e uma moça findando o banho, um casal, o chefe e a secretária, encerrando o expediente e finalmente um jovem digitador, ao computador, mas com fones de ouvido, para esquecer da labuta o tédio! A idosa mulher distribui as cartas sobre a mesa e fiel às regras do jogo e realiza, com paciência, a união dos valetes e das damas, dos reis de copas e de outros naipes, também. Tem muita dificuldade em juntar as peças da sua partida solitária, mas vai fazendo como pode, coçando a cabeça branca, vez por outra, num princípio de desespero que não lhe toma o espírito. Por certo, é viúva, já viveu dias melhores e pôde dispor de companhia em horas assim, de isolamento estabelecido. Se foi feliz no casamento, se teve filhos ou não, é impossível concluir dessa distância, numa visão simplória de seu apartamento, tão apertado quanto a gaiola de seu pássaro. Um canário belga, por coincidência, pendurado na parede de frente, trina os maios belos acordes das saudades, porque as aves encarceradas cantam em louvor à fêmea imaginária, sempre. Desiste do baralho e liga o aparelho de televisão, sintoniza o canal desejado e se deita numa cadeira enorme. É gorda, descubro, obesa mesmo, imagino, enquanto lhe observo o jeito, alisando o imenso ventre, posto assim, à curiosidade de forasteiro tão curioso, quanto eu, sem ocupação, que seja. Abre a boca, fortemente, arriscando deslocar a mandíbula, tal o sono de que é tomada. Faz o sinal-da-cruz na cavidade oral, aberta como está, virada para o mundo. Apaga a luz dali mesmo e se recolhe. Vai dormir, imagino! Não tem insônia, reflito! É diferente de mim!

À esquerda, porém, há mais vida e mais movimento, na larga vivenda do quarto andar. A empregada, vestida a caráter, de azul marinho e golas brancas, arruma a cama do casal, bate o lençol e forra a colcha que me parece de cor vermelha. A moça, ao banheiro, por trás do vidro quase fosco, deixa aparecer do pescoço para cima, apenas, com a toalha posta à semelhança dos lutadores de boxe e passa o pente nos longos cabelos negros. Lembro-me de Sophia, musa dos meus anos de menino, trancafiada em casa, para não mostrar a beleza a toda a gente da rua. Olha, da forma mais fixa possível, em direção à janela do hotel, assistindo, de longe, à minha solidão. Termina o exercício com o largo e bem cuidado manto piloso e sai, vai assistir televisão, também, na sala de casa. Não chegaram os pais, compreendo, ocupados ainda com os ardores do trabalho e a telinha ajuda a matar o tempo. A escuridão da noite, entretanto, vai acendendo as luzes da moradia, uma na frente e outra atrás, a do corredor e a da varanda, a da área, finalmente, onde vive a criada, fantasiando o porvir, nutrindo os devaneios da metamorfose da criatura, cujos horizontes, socialmente estreitos, reclamam larguezas.
 
Diante de mim, bem na frente, um escritório vive o final de mais um dia e o chefe, de gravata encarnada, salpicada com detalhes que não posso divisar, exatamente, faz o balanço da jornada com a jovem secretária, cuja blusa, percebo, é da mais pura seda, champanhe na cor. Noto que ajeita os cabelos, bem soltos, com as mãos, dando um jeito, que seja, no penteado armado e arrumado pela manhã, ainda. Ouve as palavras nascidas na boca da autoridade competente e sustenta o diálogo, uma observação ou outra, mostra um papel e anota um lembrete, reúne formulários diversos e encerra o expediente, penso. Pelo menos, desliga a iluminação por inteiro. Vou descendo para jantar, quase informo, não fosse a distância dessa separação dosconvívios. Escolho o prato à sugestão do garçom, que em Portugal se chama escarção, dizia Paulo Malta - isso nunca confirmei! De logo retorno à solidão do quarto. À janela, outra vez, posso flagrar acesas todas as luzes do escritório. E a mais do que jovem secretária, terminando de vestir a blusa, passa o pente, agora, na beleza de seus cabelos, dando adeus ao chefe. Pareço ouvir: “Até amanhã!”
 
A cama é grande e fria. O sono é bem maior e os sonhos inebriam o espírito. Até amanhã, também!
 
(*) Crônica antiga, escrita durante viagem a serviço, antecipada nem lembro as razões. O leitor que me acompanha e anda reclamando da falta de periodicidade, o espaço para comentários está aberto, aqui mesmo, no Blog, além dos e-mails pereira.gj@gmail.com e pereira@elogica.com.br

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sociologia da Gafieira

Em priscas eras, tempos idos e vividos, a gafieira era, sem dúvida alguma, uma instituição diferente. Toda a gente sabe disso, se dos quarenta já passou e nos cinqüenta encostou. Reunia o proletariado, em maioria, mas admitia, muito a gosto da diretoria, a rapaziada de classe média, remediada da sorte, permitindo a dança e facilitando a corte. Abria as portas, solene e religiosamente, quase, nas noites de sexta, repetindo a dose no sábado, incursionando pelo domingo, das 10 às 15, nada mais, nada menos. A moral do tempo e a ética da gafieira eram defendidas, ardentemente, pelo fiscal de salão, não sendo permitido ao cavalheiro aproximar-se da dama mais do que o necessário ao rodopio no salão. 

Hoje está tudo mudado. A gafieira é lugar de gente fina, de gente carregada nos anos, quarentões e quarentonas largados da família: separados, desquitados e divorciados. A intenção é uma só e independe de sexo, de idade e de cor: a caça às bruxas ou aos bruxos. Nas mesas de pista, basta uma dama levantar um copo de cerveja e o marmanjo aparece, faz o convite e se joga na lambada. Aos cavalheiros cabe fazer o reconhecimento estratégico da mulherada, anotando, aqui e ali, uma figurinha ou uma figurona mais atraente em disponibilidade, preparar o bote e aproveitar o mote, que a noite é menina. A noite, aliás, nunca fica velha. 

Na verdade, quem bem definiu a situação reinante nesses recantos modernos – gafieiras estilizadas – foi cunhado meu, quando disse, conceituando o caso: “A Noite dos Desesperados!” E era mesmo! Uma loura empeiticada, de longe, levantou a bandeira de luta – o copo de cerveja –, fazendo ao cunhado o convite, sem esperar da mulher, legítima, casada e sacramentada, a reação: um muxoxo, sonoro, aos ouvidos de quem quisesse ouvir. 

De outra feita, um camarada boa-pinta, adepto do machismo dos anos 1960, mas verdadeiro cultor do rabo-de-cavalo, usado e abusado na mesma década – usa o adorno em homenagem a um amor perdido –, foi confundido por um bêbado. Pensava o seguidor de Baco tratar-se de uma dama e confidenciou aos cochichos a choradeira toda da vida. Depois, tomou um susto desgraçado, quando viu que a figura, de rabo-de-cavalo e tudo, era machão desgraçado, brabo feito uma capota, capaz de um safanão se a conversa não findasse, se o papo fosse adiante. 

Outrora, a rapaziada chegava da casa do sogro, deixando a namorada envolta pela coberta dos sonhos, e ganhava a rua. Ia baixar no primeiro terreiro que encontrasse e lá dentro ensaiar o bolero, o tango e o samba. Ia dançar com a ama de casa, com a babá do vizinho ou a empregada do melhor amigo. Tudo, rigorosamente, nos trinques. Quando dava, o amor pintava e o casal se mandava para os recantos bucólicos que cercavam a gafieira. Haja capim pela frente, lama para botar medo em qualquer um e carrapicho para denunciar ao velho, de manhã cedo, as artimanhas da noite. 

Mas, toda gafieira que se preza tem lei, tem ética e tem fiscal de salão, como bem me explicou Lígia, da assessoria doméstica aqui de casa. Mulher na pista, dando bobeira, não pode recusar convite. Se o fizer, merece a repreensão justa do fiscal e na reincidência, o destino é a rua. Agarradinho, piorou, só do portão para fora e tanto faz se casado, amancebado ou amigado.

(*) A Crônica foi escrita há anos passados e os personagens aqui referidos já se encantaram no infinito das coisas; se encantaram e deixaram saudades, que são as lembranças do ontem. Um texto dos tempos em que não era comum o uso do rabo-de-cavalo por homens, hoje muitos o adotam e a sociedade reconhece como sendo de bom agrado. Desejando o leitor comentar, o faça no espaço mesmo do Blog ou se utilize dos e-mails: pereira.gj@gmail.com ou pereira@elogica.com.br