quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Contrastes do Cotidiano

Acomodado ali, numa sala de espera de um laboratório de análises, aguardando a vez, como tantos outros, nunca pensei testemunhar diálogos que me permitissem ensaiar reflexões quase sociológicas, a propósito do difícil exercício da vida, quando a idade vai marcando o tempo com a prata dos anos. A senhora, na casa dos oitenta, era a cliente aprazada, imagino, fazendo-se acompanhar da filha e de mais um filho, além de uma neta muito jovem, ainda. Conversavam a respeito dos incômodos provocados por ela, pela mulher de idade avançada, de corpo vergando à força das décadas e de bengala à mão. Desfiavam um rosário de queixas, desde o sono precoce no cair da tarde à insônia das madrugadas, sem falar nas impossibilidades fisiológicas de retenção das excreções orgânicas. Falavam como se estivessem imunes à senectude!

A moça era a mais loquaz! Morava com a avó e por isso vinha presenciando cenas com as quais não concordava; não concordava em vê-la sedentária, na sala do apartamento, entregue à artrose, enquanto o avô, todos os dias, descia e fiava boa conversa com o porteiro do prédio. Que fosse, também, àquele passeio matinal, entre o andar de cima e o térreo e ouvisse do empregado as suas histórias, mazelas de uma outra vida! E não podia se conformar, também, com o cochilo vespertino, transformado em sono profundo até, com roncos e outros ruídos, à boquinha da noite. Por isso, às quatro já estava de pé, andando pra lá e pra cá, insone. É que ao despertar daqueles inícios oníricos na varanda de casa, não cuidava em sair correndo pra cama, como desejava a nunca cuidadosa neta, mas tomava banho e lanchava. Assim, perdia o sono e os sonhos!

A filha, mais cautelosa, pouco dizia, mesmo que não reagisse. O filho, entretanto, malhava a mãe com todas as culpas. Não se cuidava! Deveria tomar três remédios distintos para a hipertensão de que era portadora, mas esquecia. Tomava dois ou tomava um! Nada tomava, por vezes! Um absurdo, insistia! Pior quando a neta abriu a boca para falar da incontinência urinária da pobre mulher, a sujar o sofá da sala e a deixar um rastro, como se bicho fosse, antes de chegar ao banheiro. Tinha que sair atrás, com o pano de chão, a enxugar tudo e era preciso providenciar para se levar ao sol a peça em que costumava sentar-se, impregnada, como estava, pelo líquido das excreções humanas. Procedia assim porque queria, afirmava com todas as letras e com todas as sílabas, pois nada a impedia de se levantar antes das urgências orgânicas. Fosse mais cuidadosa, portanto!

A avó, que cumpriu, como se imagina, uma trajetória longa, palmilhada de sacrifícios e preenchida por doações que só as mães podem oferecer, nada respondia e nada comentava, ouvia tudo com uma fisionomia de profunda tristeza. Em que estaria pensando? Que reflexão fazia ali, naquele momento de tantas reclamações e de tantas queixas? Quase me aproximo e intercedo em favor da mulher idosa. Ou quase chego perto e verbalizo o futuro que está reservado a toda gente, de uma forma ou de outra. Por que se ocupavam de comentários assim, tão vazios de conteúdo existencial? Que benefício poderia ter fiando conversa com o porteiro? O homem do prédio teria o que lhe acrescentar à vida vivida? E o sono? Não sabem que é da idade, mesmo, essa sonolência precoce e a insônia do despertar antecipado? E não conhecem a fragilidade dos esfíncteres humanos na velhice?

Lembrei-me de uma outra cena que vi, há poucos dias, num hospital público do Recife, tão diferente daquela interlocução de ocasião. No leito da emergência uma senhora, também, de cabelos brancos como as nuvens do céu, ao seu lado o marido, de idade próxima, como parecia, agradando-lhe os braços e confortando-lhe o espírito. Gente simples, penso eu, sem muito estudo e sem muita cultura, mas dotada de afetividade, de amor ao próximo, sobretudo assim, no sofrimento e na dor. Viveram juntos, por certo, anos e anos na contabilidade do tempo e talvez se despedissem, mas a palavra que os uniu e os afagos que os aproximou confortavam a derradeira hora.
Contrastes do cotidiano, apenas!
(*) O diálogo foi verdadeiro! Uma idosa e seus filhos - uma filha e um filho -, uma neta também. Fiavam conversa levando a pobre da senhora de muita idade ao desespero quase. Ninguém respeita os que têm cabelos brancos, os que deram muito de si. Criticam como se fossem imunes à velhice. Ah! Se imaginassem o futuro de cada um! Leia e comente, no espaço mesmo do Blog ou para os e-mails pereira@elogica.com.br ou pereira.gj@gmail.com

sábado, 4 de setembro de 2010

Um Domingo no Recife

Os antigos domingos do Recife eram diferentes, em muito, desses de hoje! Não havia "self-service", pelo menos! Dia de se juntar a família e de se fiar conversa com a parentada toda, atualizando a temática do, apenas, mundano. Tempo de parar e rever, na paróquia do bairro ou na matriz do centro, os pecados da semana, um a um contados ao cura, da forma mais cochichada possível, contanto que não se pudesse ouvir da fila as faltas e as falhas. A penitência, também, determinada pela gravidade dos pensamentos, das palavras e das obras! Intervalo sabático para se fazer a leitura mais do que demorada dos jornais, com especial atenção ao caderno literário e aos fatos do esporte. O Santa Cruz jogando, ainda, com: "Jorge de Castro/Aldemar e Edinho". Momento reservado ao almoço diferenciado, da galinha de cabidela ainda não vulgarizada, selecionada no terreiro de casa, dentre aquelas fora da postura e do choco, servida à mesa com sangria de bom vinho.

Quando o dia amanhecia, ouvia-se, de todo lado, o repicar seguido dos sinos da cidade, um aqui e outro ali, alhures, também, chamando os fiéis, que, às vezes, eram mais do que infiéis, para a Missa. De casa, um périplo saia às ruas! Os meninos e as meninas à frente, para serem vistos pelos pais, mais atrás e finalmente, naquele séquito que antecedia a liturgia e o rito, os avós e as tias, lentamente, como andam, ainda hoje, os velhos, bem velhos. Na igreja, era preciso ocupar mais de um banco pra caber tanta gente! Os filhos, todavia, ficavam sob o rigoroso cuidado do pai e da mãe, metade pra cada um, com o objetivo de aprenderem, adequadamente, o comportamento durante o ato de canônica liturgia. Nas passagens de maior significado, a constelação parental se ajoelhava, menos a avó e a tia velha, dispensadas pelo monsenhor, Camareiro Papal que era, do sacrifício dessa posição respeitosa. E cada qual portava um livro de orações, mais ou menos volumoso, a depender da idade. Todos, igualmente, traziam o terço, poucos, porém, se ocupavam com os mistérios, gozosos e dolorosos.

O resto da manhã de domingo era preenchido, quase sempre, por um filme, no São Luiz ou no Moderno, a cuja sessão, mesmo que matinal, obrigava-se o paletó e a gravata para os rapazes. E não era muito raro pedir ao um amigo, emprestada, uma peça assim, de roupa, para compor a indumentária ou jogar do primeiro andar do cinema o paletó surrado, para integrar outra vestimenta, então, enganando o porteiro. Dramas de amor encheram as telas e molharam a face de muita gente, deixando gravadas as letras chorosas das perdas irreparáveis: "Por que não páras relógio/Não me faças padecer...". É possível que alguns introjetassem essas rupturas, antecipando os danos do amor que a vida, muitas vezes, reserva! Nas poltronas da platéia, invariavelmente, os casais enamorados trocavam juras e faziam promessas nunca vãs, roubavam os primeiros ósculos e ensaiavam os afetos dos inícios, de cujos começos emergiram amores perpetuados, ainda.

Quando a tarde amornava o dia, expondo as árvores em grandes sombras, instalava-se a pelada ou o "rasga", como se chamava esse tempo da bola. Juntavam-se os meninos todos da redondeza e um deles, o dono da pelota, de borracha ou de couro, era, invariavelmente, escalado. Uns jogavam muito bem e outros muito mal. De todos, nenhum deu pra gente, isto é, ninguém seguiu a carreira do futebol e na escalada da vida, tiveram que trabalhar duro, mesmo, amealhando centavos. Quem atrasado chegasse virava juiz e com o apito expunha à galhofa a mãe e a outros ancestrais assemelhados. A rua, inicialmente, de terra batida, recebeu a modernidade que o asfalto trás e muito samboque de dedo foi arrancado nos chutes a gol, os quais, se bem sucedidos, valiam as feridas e as dores. Isso tudo a vizinhança renegava, porque a bola varava os ares e ia cair nos quintais alheios, provocando a ira da gente local e as lições de moral se sucediam, das casas que ficavam às margens do improvisado campo, sem grama e sem barra, que fosse!

À noite, o cinema do padre! Mas isso é outra história! E outros quinhentos cruzeiros.