sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Em Tempos Assim


Sentado agora, diante do computador, vendo as letras emergirem fluorescentes da intimidade da máquina, lembro-me dos velhos e já muito distantes anos de grupo escolar, quando sequer imaginava avanço tão grande. Ah, como as coisas mudaram nesse interregno de tempo, cinco décadas, pouco mais ou pouco menos! A professora, Dona Maria do Carmo de Albuquerque Mello, ia todos os dias ao quadro-negro escrever o ponto, isto é a matéria a ser explicada e depois estudada; ponto, aliás, cuidadosamente, copiado por todos nós. Por mim e por Luiz Fernando, meu colega de todos os bancos escolares, por Carmen Silvia e por Silvio Romero Marques, por Walfrido Antunes e por Carmen Chaves, ela musa das aulas e dos recreios. Havia uma inglesa de nome Ana, se bem me lembro, que no dia da coroação da Rainha Elizabeth II me deu de presente um lápis com o clássico: God Save the Queen. Onde andará, em que terras estará aquela figura loura, de cabelos quase brancos? E a outra colega das morenidades provincianas, Vera de prenome, cujo sobrenome omito por hesitação da consciência? Nunca mais as vi! Perderam-se, penso eu, na longa noite das décadas, trevas de todas as lembranças. Perdidos também ficaram os devaneios de todos os meninos. Sonhos pueris.

Nesses princípios de meus convívios, francamente, tudo ou quase tudo era muito bom. Deliciosa infância a minha. Camisa branca com o monograma da escola, calças azuis e sacola de lanche pendurada, levando o de sempre: pão com ovo frito e guaraná. Era jovem a minha mãe e o meu pai muito novo, eu sequer imaginava os cabelos brancos de hoje, tampouco as rugas da face e o vergar do corpo cansado com as agruras do mundo. O tempo passa e a gente marca! Sou da geração nascida na guerra, criada no pós-guerra. Trago o signo da beligerância mundial e a carência dos amamentados durante o blackout. Fui daqueles que educados pelos jesuitas, pelos salesianos ou pelos beneditinos traz o sinete dos pecados da carne, com quase nada das necessárias tinturas das grandes virtudes humanas: a caridade e a fraternidade. Das proximidades, enfim, dos valores d'alma.

Geraçao da metamorfose do tudo, das ciências e dos costumes, posta como recheio no sanduiche da modernidade, entre o antigo dos anos 50 e o moderno das décadas que se seguiram, assistindo agora a materialização do progresso de que falava meu pai, antecipando futuros. Pena que não os veja mais! Desatualizando-se, pois! Saudades agora de um porvir que não veio. Nostálgicas digressões de um órfão, passado o dia dos pais, de todos os viventes e os não-viventes. A caderneta da venda de seu João rendeu-se à tecnologia dos grandes supermercados, nos quais o simples digitar de senhas ou de números transfere da conta os valores em reais. E os livros dos estabelecimentos bancários, como os vi, enormes outrora, deram lugar às máquinas da modernidade, contabilizando ganhos e perdas. O fax chegou e não há como reverter os avanços - muito mais há de vir -, sendo impossível buscar nas gerações que emergem vocações para as cartas de amor, epístolas dos sentimentos.

No computador, porém, não escrevo; não posso criar, confesso! Nego-me a tanto! A padronização do écran inibe o exercício da criação, impede a expressão dos sentimentos no abraço das letras e na inclinação da escrita, segundo os afetos. Pode o amante digitar os seus amores nesse teclado das friezas emergentes? Ou pode a saudade tomar corpo no branco desta tela, sem macular, assim, purezas virginais do alvo que tem o papel? Não há como ler, aos cochichos, a crônica impressa no vídeo, detectando sonoridades e afastando barbaridades, choques indesejados. Antes as rimas, nas tintas sempre!

(*) Texto escrito e publicado na primeira metade dos anos 90, pouco tempo depois da perda paterna, quando o autor imaginava que não se renderia à força da informática, preservando o poder quase mágico da máquina de escrever. Rendeu-se!



Comente também para pereira@elogica.com.br




3 comentários:

  1. Adorei o texto, professor. Foi engraçado que comecei a achar estranho a parte em que o senhor diz que não se rendeu ao computador. Depois entendi a razão quando vi a nota final. Grande abraço, Vitória.

    ResponderExcluir
  2. Também achei que não me renderia à frieza do computador. Tive sempre a impressão de que as palavras originadas por esse teclado não tivessem alma, ou tivessem menos. Achava impossível criar diante dessa tela. Recusava até mesmo a máquina de escrever. A necessidade me obrigou também, mas ainda acho que se escreve com mais sentimento quando se usa lápis e papel. E ainda acredito nas cartas de amor. É uma bela crônica. A saudade sempre inspira coisas assim, não é?!
    Atenciosamente,
    Helicarla.

    ResponderExcluir