sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Maria Betânia

Em noite úmida, de chuvisco intermitente, em pleno coração da velha zona boêmia, onde tantos e tantos amores já foram chorados em braços alheios e paixões desesperadas, mesmo que proibidas, esfriaram com outros abraços, bafejando do caís um sopro friorento de madrugada gestante, Nelson Gonçalves deitou e rolou. Sob as vistas e os aplausos calorosos de prostitutas remanescentes e cafetinas insistentes encantou a toda gente, do remediado da sorte ao ameaçado de morte pela malsinada economia dos poucos, neste insalubre rincão dos passeios de Darwin. E antes que o boêmio chegasse com a maviosa voz das fadas, Eliane Ferraz cantou e encantou também, rebuscando lembranças e revirando saudades. Por certo que a moça, a tirar pelo sobrenome, vem dos sertões esturricados ou das caatingas desnudas cantar loas urbanas, enaltecendo o recanto e recuperando cantos, abrindo com o bisturi da voz feridas mal cicatrizadas nos sentimentos d’alma.

Em trajes de gala para mais uma noite de carinhos vendidos e afagos medidos, três mulheres, meninas quase, desfilavam garbosas por entre o povo comum, dando ao corpo uma trégua que fosse à guerra dos desamores. Prontas estavam para o ofício antigo, de roxo todas, com adereços doirados, preparados para o mais difícil dos labores, entregar-se, sem amor e sem ódio, à gana desenfreada dos machos vencidos pelos reclamos desgraçados da carne. Afetos nascidos da precisão do metal, paridos sem gosto, no desgosto medonho de não ter profissão, senão aquela, a de dar sem receber, de amar sem ser amada. Depois, no amanhã dos tempos, quando o peso dos anos vergar os ombros e pratear os cabelos, é hora do desprezo dos homens. Quantas e quantas já se foram, tangidas pela indiferença humana, chorar desgraças em lágrimas sofridas da solidão? Marias, com a mais absoluta das certezas, muitas, severinas outras tantas, mas sebastianas, marinas, ritas e ivonetes também! Deixaram, no sinuoso trajeto do existir, sem que pudessem viver, sombras nada mais, de faces moldadas na argila da beleza e réstias de corpos bem desenhados, traços mouriscos da miscigenação tupiniquim, entre brancos de linhas avantajadas e negros nascidos no mais puro pretume d’África. Seios que embalaram sonhos, oníricos ou não, em devaneios momentâneos, pagos sempre em moeda corrente, como se a fantasia pudesse emergir de águas assim, turvas, na sujeira que o dinheiro tem e produz.



Na minha frente, um senhor, moreno na tez, de têmporas colorindo os anos, entusiasmado, ouvia as cantigas todas, exagerando-se em palmas, como se aplaudisse o tempo perdido, num rever de um filme tantas vezes mostrado, exibindo saudades na tela da vida. Pedia, a toda hora, transformando em conchas as mãos, para gritar mais alto, a letra de suas preferências: “Maria Betânia”. E quando Nelson cantou, abriu-se em pranto baixinho, sem incomodar os outros, chorando certamente um amor partido e perdido, deixado pra trás nos espinhosos caminhos do afeto. Deu vontade de perguntar, de indagar com respeito: a quem tanto amara? De saber dos lugares de que se lembrava? Fora gente do caís? Ou fora gente de outras paragens que não lhe entendera os sentimentos e não lhe compreendera os desejos? Branca, talvez, com preconceito de cor ou negra, morena ou mulata? Não sei, não perguntei, não pude, impediram-me os céus, molhando a gente e dispersando o povo. Tantos os que andam assim, vivendo de recordações, buscando aqui e ali uma brecha de vida pra caber lembranças! Momentos assim, preenchidos com notas musicais do amor, ocasiões meritórias das fantasias de um reviver, apenas!



Ah meus tempos, meus amores e minhas dores! Ah meus sentimentos, expostos agora na beira do caís, embalados nas ondas do mar das ilusões, oceano das lembranças, águas paridas da intimidade atlântica, regidas pela batuta da desses imaginários exílios do tempo. Eis a crônica de um reviver, oferecida, como todo o amor do autor - platônica digressão esta, a de amar a toda gente -, à solidão feminina, às mulheres que amaram e amam, perdidamente, o encantado príncipe dos anos.



Deus guarde “Maria Betânia”, a de Nelson e as outras, incluindo a prima do escriba aqui, vizinha quase e todas as marias do mundo.




Crônica escrita e publicada em abril de 1992, depois de uma apresentação de Nelson Gonçalves no Recife Antigo.


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