quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Preguiça e o Tamanduá

Que amanhecer lindo esse de hoje, aqui por Aldeia, nos domínios do Bosque das Águas. Impossível não abrir o computador no alpendre e aproveitar a inspiração, para não ver fenecer essa manifestação da natureza em flor. Antes mesmo que o tempo mudasse, que a chuva chegasse ou que os céus se transformassem e assim nublassem, o bonequinho que veio de Santa Felicidade, em Curitiba, deu o necessário sinal e saiu de sua casinha, para anunciar que as nuvens estavam se desfazendo em água e o solo árido dos dias que se foram ia merecer o húmus de que se ressente. É a chuva do caju, diria minha mãe, se aqui estivesse. São as precipitações que a cada final de ano ou começo de um novo período emergem em meio ao calorão dos dias, para molhar o chão e deixar uma nesga, que seja, de esperança. Faltaram os trovões, que anunciam o esfriar das horas! E os relâmpagos?

Esse momento tão aconchegante e gostoso é um estímulo à aproximação dos amores, aos bichos e à gente toda que Deus fez e conduz. Já a sabiá-gongá está cantando diferente, ensaiando um trinar das paixões, embora os filhotes ainda estejam reclamando a comida minuto a minuto. Não param, praticamente, num chilrear constante, como se os estômagos nunca estivessem saciados. À distância estou ouvindo o cantar melodioso do rouxinol, marcado pela repetição dos compassos e aqui, bem perto de mim, numa banda de mamão que expus, um frei vicente faz a festa e um outro pássaro, verde-lindo de cognome, não consegue se aproximar com medo do joão moleque e de sua fêmea, a maria mulata. A chuva trouxe tudo isso, quase uma expressão da veneração benfazeja à grandeza da divindade, que a tudo fez e a tudo faz.

O sol já despontou no horizonte e se encontrou com a chuva. Não! Não é o casamento da raposa. Tampouco o bonequinho do Paraná recolheu-se em sua casa. Chegaram – isso sim – os sagüis, muito assustados, como cabe ser aos primatas, espreitam na mangueira o mamão dos pássaros Talvez, na casa de meu primo, Vadeco por apelido, a preguiça de seu entorno tenha aparecido e visto Nena, que dela tem medo, mas não nega a água que mate a secura do desdentado arborícola. Por cá, o pessoal teme o gambá, que é o mesmo timbu que o Zezinho mata às custas de muita aguardente no juízo. O bichinho vem beber na terrina de barro e se embriaga, tomba feito o bêbado da esquina. Alfredo, o da Ceasa, noite alta e céu risonho deslumbrou-se com a figura de um tamanduá fuçando o seu terreno. Parou o carro e ficou imóvel, perplexo, observando o ato e o fato. O feito, também!

É assim por aqui, nos arredores do Recife. Daqui, no quilometro 16, até Chã de Cruz, a mata atlântica faz companhia ao carro. E o meu genro espanhol – Gonzalo Herraz – não escondeu a sua admiração, quando viu as grandes árvores margeando a estrada, a mata fechada, a floresta de vegetação alta e densa, verbalizando, então: “Nunca vi isso!” E é verdade, essas coisas só existem no Brasil, exuberantes como são, mesmo sob as ameaças todas e as mãos de marginais que agridem a flora e matam a fauna, destruindo tanta beleza que a natureza legou à gente desta terra sempre farta. E eu que venho tentando, todos os anos, cultivar o milho e o feijão de meus agrados, francamente, não tenho coragem de derrubar as fruteiras de que disponho, para me livrar das sombras e permitir crescer a lavoura. Fico lá com o coentro e a cebolinha de Nena, recebo as sementes do pimentão e agradeço a lembrança do tomate, mas aqui por casa não derrubo as árvores.

Na sexta-feira, almoçando em casa de um certo parente, vi uma patativa golada cantando a toada que os machos entoam lembrando a fêmea que não tem, roendo de saudades dessa companheira de que foi privado. A gaiola me lembrou de meu pintassilgo de infância, que cantava de dia e de noite, fizesse sol ou chuva, nos momentos de tristeza ou nas horas de alegria. E o amigo de meu pai, encantado que ficou com o pássaro, levou o gaiolim na mão e eu fiquei olhando, o quanto pude, o desaparecer distante da ave que me tinha chegado de Caruaru, pelas mãos de Marina, uma babá dos meus anos de calças curtas.

Que dia gostoso! Uma manhã ventilada, um céu nublado e a companhia dos bichos e das árvores. E na casinha de Santa Felicidade, o bonequinho recolheu-se: voltou o calor.

(*) Crônica escrita no começo do mês de dezembro de 2007, em Aldeia, numa manhã nublada de domingo, antes que o sol chegasse e o tempo esquentasse. A inspiração dos pássaros e a paz do lugar me fizeram parir do imaginário essas palavras e essas frases. Uma antecipação, talvez, do Natal que se aproxima, nessa felicidade que experimentei e experimento. Harmonia e concórdia, desejo a todos.
(**) Acrescentei ao Blog um contador de visitantes - no final das crônicas à esquerda -, mas não estou muito certo de que o programa está registrando corretamente. Mais de 20 visitas ao dia? Esmola grande o cego desconfia! Por isso, para confirmar esse movimento, gostaria de uma mensagem de cada um para pereira@elogica.com.br Coisa mínima que seja, como Ok ou Visitei. Grato sempre.

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