
Em casa já está pronta a sala de jantar. É sempre em torno de uma mesa que as festividades acontecem, repetindo o Cristo, que tantas vezes ceou com os seus apóstolos. Os cálices de vinho chegados da Espanha foram expostos e o negro das taças parece contrastar com o branco do móvel ou com o vermelho da toalha. Um vermelho estampado com motivos natalinos mesmo, com sinos dourados e com folhas verdes unidas por fitas encarnadas. Um bacalhau e um peru hão de fazer as vezes na refeição da meia-noite, sem falar no presunto ibérico, que veio das distâncias agora gélidas da antiga Castela ou nos acepipes doces com a mesma origem. Antecipando o Natal, um coral infantil cantou em frente ao prédio, numa pequena pracinha, um refúgio como se diz, entoando cantatas próprias para os dias. E a sintonia fina da emissora de rádio faz um teste para um instante diferente de todos os outros.
Nos quartos as colchas novas, com alegres motivos, representam o júbilo da família com a chegada das duas filhas que moram distantes. Está reunida, outra vez, a constelação parental e a satisfação preenche os claros d’alma. É o prazer de encontros e de reencontros que durante os dias comuns não se materializam. O corre-corre de um cotidiano buliçoso impede isso, o ver e o rever das filhas. Há um passeio programado pelas águas do rio das capivaras – o Capibaribe –, para entender a expressão de Mauro Mota em Domingo no Recife: “(...) o rio ninando o Recife (...)”. Ou para compreender João Cabral em Cão sem Plumas: “(...) Na paisagem do rio/difícil é saber/onde começa o rio;/onde a lama/começa no rio;/onde a terra/começa da lama;/onde o homem,/onde a pele/começa da lama;/onde começa o homem/naquele homem(...)”. E há de ter mais um momento de regozijo, o de voltar às ruas da cidade, como sucedia quando eram pequeninas, para apreciar, então, a iluminação do velho burgo.
Momento, todavia, que não acontecerá em inúmeros lares do Brasil. Há quem nunca tenha podido se servir de um peru, como aquela senhora muito jovem, de 19 anos, moradora de um barraco sob o viaduto da rua Imperial. Mulher de marido desempregado, sem eira nem beira. A sua carta pendia na agência dos Correios do Rosarinho, rogando ao Papai Noel que lhe contemplasse com um exemplar da ave natalina e mais, uma roupa que cobrisse o seu filho. Queixava-se da fome de todos os dias e dizia que se aproximava um tempo diferente, o do nascimento do Deus-Menino, razão suficiente para não deixar de se alimentar como desejava. Teve a sua carta atendida, como sucedeu com outras, inclusive com aquela em que para 8 crianças de casa pedia-se uma bicicleta e um panetone. A questão só foi resolvida em parte e numa parte muito pequena de um todo de sofrimento e de privação.
Deus permita que as crianças de hoje possam crescer em paz, possam desfrutar de um futuro mais ameno e menos violento, preenchido com o básico das exigências humanas. A educação que enobrece, a saúde que dá a higidez do corpo e a serenidade da alma, a segurança que permite o ir e vir e a moradia, de cujo conforto – mínimo que seja – possa resultar a construção da cidadania salutar e do convívio pacato.
Momento, todavia, que não acontecerá em inúmeros lares do Brasil. Há quem nunca tenha podido se servir de um peru, como aquela senhora muito jovem, de 19 anos, moradora de um barraco sob o viaduto da rua Imperial. Mulher de marido desempregado, sem eira nem beira. A sua carta pendia na agência dos Correios do Rosarinho, rogando ao Papai Noel que lhe contemplasse com um exemplar da ave natalina e mais, uma roupa que cobrisse o seu filho. Queixava-se da fome de todos os dias e dizia que se aproximava um tempo diferente, o do nascimento do Deus-Menino, razão suficiente para não deixar de se alimentar como desejava. Teve a sua carta atendida, como sucedeu com outras, inclusive com aquela em que para 8 crianças de casa pedia-se uma bicicleta e um panetone. A questão só foi resolvida em parte e numa parte muito pequena de um todo de sofrimento e de privação.
Deus permita que as crianças de hoje possam crescer em paz, possam desfrutar de um futuro mais ameno e menos violento, preenchido com o básico das exigências humanas. A educação que enobrece, a saúde que dá a higidez do corpo e a serenidade da alma, a segurança que permite o ir e vir e a moradia, de cujo conforto – mínimo que seja – possa resultar a construção da cidadania salutar e do convívio pacato.
Feliz Natal - 2007
(*) Um texto escrito numa manhã feliz de sábado - um sábado de Natal -, para assinalar a alegria de estar com todas as filhas e com todos de casa nessa comemoração das festas.
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