
Para mim a mensagem do chefe da tripulação de cabine daquela aeronave em que voltava da Europa, onde deixei a minha filha e o meu neto, não me surpreendeu. Surpreender-me-ia – Isso sim! – ter atravessado o Atlântico sem nada de inusitado, ou melhor, sem acontecer nada diferente durante a quase aventura de romper os ares do mundo. É interessante! Nunca ouvi o chamado rádio de bordo convocar um advogado entre os passageiros ou um engenheiro ou ainda um psicólogo. Assim: “Atenção! Atenção, senhores passageiros: se tiver algum advogado entre os passageiros, favor apresentar-se à tripulação de cabine.”. E diante de um profissional do direito, solicitar os seus préstimos para dirimir dúvidas em torno das normas internacionais: o que pode e o que não pode! Até para patrocinar uma causa de repentina ruptura dos laços matrimoniais, haja vista a possibilidade de um desentendimento recente entre os parceiros de um casamento.

Costuma-se convocar, muito frequentemente, um médico, dentre os que se incluíram na aventura de voltar para casa ou na peripécia de vestir-se com a roupagem de um turista e voar para conhecer novas terras. Mas, sequer, perguntam pela experiência do profissional de Esculápio assim chamado. Comigo, por exemplo, nada indagaram a propósito. Se já tinha atendido alguém nessas circunstâncias, justamente no momento em que o almoço foi servido e havia um bacalhau à moda portuguesa olhando de cara para mim. Se fosse inquirido, teria a resposta na ponta da língua e diria de logo: “Entre o Recife e o Rio de Janeiro atendi um senhor de idade avançada e o infarto agudo do miocárdio o fez falecer!”. Já seria alguma coisa, em meu
Curriculum Vitae de profissional versado em casos aéreos. Nada indagaram, antes o contrário, apenas me indicaram um doente passando mal em poltrona quase no final da aeronave.

Mas, quando ia andando para a minha apresentação formal, um colega ainda não conhecido por mim, olhando a minha passagem, um tanto quanto tímido, verbalizou: “Eu também sou médico!”. Lembrei de certo programa de televisão, comandado por Goulart de Andrade e não hesitei: “Vem comigo!”. E lá fomos os dois saber do paciente e de seus males naquelas alturas. Era um senhor de idade acima da minha, imagino, com um aspecto de certa cronicidade, acompanhado de sua esposa, a qual só deixou o penitente falar quando lhe interrompemos a verborragia com a qual se expressava. Era preciso, então, ouvir o inquieto doente. Falou, afinal, e disse de suas mazelas, de seus exames e dos encontros patológicos anteriores. Decidimos, então, nos reunir na parte final do avião, em verdadeira junta médica aérea.

Foi ai que o colega indagou os meus dados e eu perguntei sobre ele. Chegamos à conclusão que éramos amigos de um terceiro: o Júnior. O nosso companheiro recém-identificado é um anestesista com experiência larga no interior de Pernambuco e sobre ele temos histórias para justificar aquela risadaria toda na cozinha do avião, enquanto o comissário fora buscar o que chamou de “Maleta de Médico”. Não poderia esquecer de contar uma passagem engraçadíssima, aquela da praia da Conceição. É que estávamos, os dois casais, numa animada conversa, quando uma estrangeira bem afeiçoada de corpo baixa a sua roupa de banho e expõe dois seios robustos. Me virei para o Júnior e disse em voz baixa: “Estou me sentindo mal! Estou todo me tremendo”. E ele: “Por que você está assim?”. Veja só o que vem se aproximando da gente! E lá vinha o monumento móvel se deslocando. Não andou muito, viu o grupo e se recompôs! Que pena!

E cada qual contava uma ocorrência com o nosso amigo comum, até que chegou a “Maleta de Médico”, uma caixa de madeira grande, de cor branca, parecida com os apetrechos usados nas guerras. Cascavilhamos o conteúdo e identificamos o que íamos precisar e lá fomos nós examinar o nosso cliente de ocasião. Vai pra lá e vem pra cá, o homem tinha 38,8ºC de temperatura e por isso tremia tanto, trazia a pressão arterial normal e tinha o ritmo cardíaco regular. Bastou um paracetamol para resolver a questão e um tranqüilizante para a esposa, cujo nervoso era maior que a doença do marido. Não que fosse como a cantoria de minha infância: “.../A inveja mata mais que a doença/...”. Coitada, estava aperreada, com a infecção renal brutal do esposo e com a hipertensão arterial, da qual não se tratava direito, não obedecendo às ordens do médico. Voltamos e nos sentamos, não sem antes nos tornarmos quase donos da aeronave, porque tudo de bom nos foi servido, do bacalhau bem passado ao vinho português de boa origem.

Agora, imagine o leitor, que me honra, sempre, com o seu exercício da leitura isenta e desapaixonada, que diante do nosso doente havia um jovem de seus 30 a 34 anos com uma máscara no rosto. Gripe suína? Ou medo da virose emergente? Não sei! Só sei que voltando para o meu lugar, desatei a espirrar e contei nos dedos 4 espirros fortes. Vou contabilizando essa mórbida manifestação e no dia de hoje, confesso, contando tudo, já se vão 12 espirros. Mais um agora mesmo: treze. A conta do azar! Valha-me Deus do céu! Essa gripe me mata!