quinta-feira, 18 de junho de 2009

Bunda em Japonês

Desde os anos sessenta, no século passado ainda, que lido com os japoneses. Foi ai que a Universidade fez o primeiro convênio com a agência de fomento do país nipônico. Recebeu-se muito em equipamentos e em material de consumo, as pesquisas ganharam corpo e até um veículo (jeep) foi enviado ao Recife, para colaborar nas investigações com as chamadas – mal chamadas – Doenças Tropicais. Brasileiros iam a Tóquio e japoneses vinham à Capital pernambucana. Foi um tempo de intercâmbio saudável e até os profissionais do ensino daqui passaram a conviver melhor. Pena que alguns já se encantaram no infinito das coisas. Foi nessa ocasião que um colega da instituição, numa das festas na representação diplomática, criou a organização não governamental – a primeira do Brasil –, intitulada MO. Logo assumiu a presidência. Significava Maridos Oprimidos. Éramos todos, segundo ele!
Naqueles anos iniciais eu não fui ao Japão, era muito novo, estava começando na vida e havia outros na minha frente. Tempos depois, já na terceira oportunidade de novo convênio, ai sim, viajei e confesso que voltei encantado com a Terra do Sol Nascente. Fui homenageado, em 30 dias de permanência, com 28 almoços ou jantares. Todos os dias, quase, eu saia do hotel com essa destinação gastronômica. Resultado, experimentei toda ou quase toda a variedade culinária daquele canto do mundo. Mas, como sempre, acontece comigo, há algo de inusitado, pitoresco nos meus passeios ou em minhas obrigações de todos os dias. Eu acho diferente se não acontecer! Já contei por aqui o episódio no hotel, das trocas das cortinas e vou lembrar outro, em jantar importante que fui com o Secretário de Saúde. A autoridade, inclusive, demorou a chegar, mas os pratos foram sendo servidos e os dele postos em fila diante de seu lugar, até sua chegada.
Ele chegou e o diálogo teve início. Eu falava em português, a minha tradutora passava para o japonês e vice-versa. Conversa vai e conversa vem, explicava a ele as condições de saúde no Brasil, a assistência ao doente e as medidas preventivas. Mas, era interessante, ele só tinha uma resposta, nada mais: “Ah! Sondesuka!”. Só dizia isso! Eu fui ficando admirado com aquilo e me virei para a minha mulher, dizendo em bom português: “Não aguento mais! Não diz outra coisa!”. Estava sentado, literalmente, no chão, com as pernas cruzadas e os meus joelhos doíam como nunca. Resolvi, assim, indagar da senhora intérprete o que ele respondia com aquela repetição constante e que ela não cuidava em traduzir. E ela, sem mais delongas, explicou: “Ah! É! É!”. É que o japonês, pelo geral, é muito cuidadoso e não comenta as coisas de seu interlocutor antes de uma reflexão qualquer. Muito menos quando se trata de uma situação noutro país.
De outra feita, após um jantar em cidade do interior, cujo nome não lembro mais, porque sempre são muito difíceis, depois de uma deliciosa sopa de peixe, quando eles bebem o caldo fazendo aquele ruído que para o brasileiro seria falta de educação e que a cultura local aceita e recomenda, um deles indagou: “No Brasil, fora mulher, de que vocês gostam?”. E eu, no fleuma habitual de minha natureza, tinha a resposta na ponta da língua: “Só gostamos mesmo de mulher! É mulher em primeiro lugar, no segundo e no terceiro! Nada ganha para mulher!”. Adianto que estava sozinho e tínhamos tomado a saborosa cerveja do País: a Saporo. Um outro me perguntou, certa vez, por que andávamos de mãos dadas, os casais brasileiros, como se fôssemos crianças de creche. Eu dei lá uma explicação que já não lembro mais!
Mas de todos esses impasses, nada foi melhor que o meu encontro numa colônia japonesa com alguns imigrantes do Sol Nascente. Eu fazia um serviço de exame periódico nesse pessoal e viajava o Ceará, o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Era na sexta década do século passado, naquele primeiro convênio. Não sei mais as razões, mas numa roda de fiar conversa, saiu uma história contada por mim sobre as pontes do Recife, em cujas pontes alguns habitantes podiam pescar siris. Ora, os olhos dos homens faiscaram de alegria e as mulheres se retiraram da mesa. Um deles indagou, na entonação comum aos que não dominam a língua: “Passa shiri boiando?”. Sim, respondi. “É shiri grande?”. E apresentava o tamanho abrindo as duas mãos em tamanho comparável aos pratos de uma balança. E eu, sem entender bem o que dizia e o que entendiam eles, respondia: “Não! Siris pequenos. Mostrava, então, o tamanho com a meus dedos – indicador e polegar – fechados, quase em concha! O diabo, compreenda o leitor, é que shiri em japonês é bunda. A senhora da Universidade que me ajudou, agora, a escrever a palavra, pedindo a colaboração de aplicada tradutora nissei, me avisou: “Doutor! A palavra é pejorativa!”.

E por ai vai!
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