quinta-feira, 11 de junho de 2009

Parecia uma Assombração

Estou pensando – pensando apenas – em publicar um livro reunindo as minhas histórias, sobretudo aquelas com um conteúdo pitoresco. Evidentemente, nada tem a ver com as minhas memórias, as quais, de uma forma ou de outra, tenho divulgado no Jornal do Commercio, do Recife e aqui, neste espaço virtual. Confesso que tenho histórias – nunca estórias – em quantidade, sendo preciso somente começar a anotar certas lembranças, para depois desenvolver cada um dos temas em particular. Ninguém tem a capacidade de redigir tudo a uma só vez! Isso é um projeto lento e vai sendo construído aos poucos. Depende do aflorar dessas lembranças, já antigas agora. É claro que há outros projetos mais sérios antes desse pretenso volume, mas tenho razões para pensar em cumprir o compromisso de publicar mais um livro este ano, como pensava fazer. Não custa, então, ensaiar dois ou três fatos desses que tenho. Aqui e agora!
Era madrugada e eu estava no pavilhão de isolamento atendendo a um doente que passara mal. De repente, no fim do corredor, um grito forte de outro doente: “Me acuda, pelo amor de Deus!” Sai correndo e fui ver o desesperado paciente. Indaguei o que se passava e ele me fez a seguinte pergunta:“Qual foi o resultado do jogo do Brasil?”. Mas, meu amigo, disse de logo, como é que o senhor grita assim e ao final faz uma pergunta dessa? E a resposta: “Doutor! Aqui só se atende mesmo a quem está morrendo!”. Terminei rindo e informando que a seleção tinha perdido. O homem tinha leptospirose – vivia-se uma epidemia –, recebendo todos os dias a visita da esposa. Era interessante, porque ela não indagava se ele estava melhor. Dizia sempre: “Morreu?” E eu respondia: “Não morreu!”. E apareceu uma segunda criatura, com a mesma formulação: “Morreu?” Não morreu!”. Até o dia em que pude dizer a ambas: “Não morreu! E não morrerá mais!”. Tiveram uma decepção, queriam a previdência.
Pior foi o soldado de policia, que barrado na porta da enfermaria de doenças infecciosas – doenças contagiosas – ameaçou derrubar tudo a bala e entrar para visitar um parente ou uma mulher de seus afetos, já nem me lembro ao certo. Foram me chamar, porque eu era pau pra toda obra, me obrigando a um diálogo inóspito com o autoritário policial: “Meu senhor! Isso aqui para ser construído foi um horror, para ser instalado precisou de uma enchente e a consequente epidemia de leptospirose. Não vale a pena derrubar tudo!” E ele insistia alegando a sua autoridade e a impossibilidade de ser barrado assim, como estava sendo, em qualquer lugar deste mundo de Deus. Sendo dessa forma, comentei, terei que desrespeitar as ordens do comandante da corporação. E ele, mudando de idéia: “O senhor tem toda razão! Vamos respeitar as ordens do coronel!” E aquilo lá nada tinha a ver com militar e muito menos com a corporação. Usei, apenas, o dito popular de que para um doido só outro na porta. Apliquei, então, o mesmo o artifício pela segunda vez!
Depois, fiz um concurso para trabalhar em instituição fiscalizadora do exercício da medicina. Ia de hospital em hospital, de clínica em clínica, de serviço em serviço, a todos os lugares onde a ciência de Hipócrates fosse exercitada. Era um rolo! Uma vez, então, houve uma denúncia a propósito de certa instituição psiquiátrica, na qual os dias feriados passavam descobertos, sem médico plantonista. Num certo sábado, com a família toda no carro para ir à praia, decido comparecer ao estabelecimento em causa e lá chegando dirijo-me ao vigilante: “O médico de plantão, por favor!” E a resposta veio rápida e bem estudada: “Médico de plantão não tem, mas tem um enfermeiro ai que é mais competente que muito médico!” E eu: “Chame ele, por favor!” E veio um homem moreno escuro, de compleição física avantajada, dobrado como se dizia, um guarda-roupa quase. Claro que não era um enfermeiro, mas um auxiliar. E só vendo a perplexidade da criatura, quando soube quem eu era. Foi processado o hospital e do resultado, francamente, não lembro mais.
Por fim, um caso de histeria em pleno ambulatório dos comerciários. A mulher estava toda dura, rígida como um cadáver, espumando e babando, os olhos virados. Parecia uma assombração! O colega que fazia o atendimento cuidava em medir a pressão arterial e auscultava o coração com todo zelo ou desvelo. Era novo, sem experiência em serviços de urgência e creio eu nunca tinha visto uma encrenca assim. Ia e voltava sem diagnóstico. Resolvi, então, intervir e chegando junto ao ouvido da paciente disse-lhe, cochichando: “É melhor a senhora ir embora. Estão se preparando e vão lhe operar sem anestesia. A mulher ainda hoje corre pela rua desnorteada, sem paradeiro. E o medico, absorto, quando chegou não entendeu o que se passou. A paciente curara sem mais nem menos. Um milagre, pensou!

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