segunda-feira, 8 de junho de 2009

Nome do Pai Ampliado

Morava em Olinda, à entrada da cidade, na altura do Umuarama ou no Varadouro, é o que ainda hoje se diz, depois de tantos anos passados na contabilidade do tempo. Convivia com os meninos e as meninas do lugar, mas era uma figura que se diferenciava pelo tique nervoso que tinha. É sempre assim! Era assim com aquele empregado do restaurante de Currais Novos, na estrada de acesso a Mossoró. Almoçamos ali, no Tungstênio Hotel, lembrei agora, quando encontrei a foto na Internet. Internet serve pra tudo! Personagem respeitado no ambiente, mas incapaz de servir uma mesa, tal o seu tique nervoso. Depois que a casa fez a aquisição de uma geladeira nova, com um trinco especial, porque grande e bem afeiçoado, articulado no sentido vertical, abria o refrigerador depois de dois ou três movimentos para agarrar o metal da tranqueta, até que conseguia e acessava o equipamento do gelo e do frio.
Passava horas a fio treinando essa abertura mágica e com isso pegou o tique nervoso, de tal forma que movimentava o braço em qualquer que fosse a circunstância. Eu era menino quando passei por lá – ia a um congresso em Mossoró com meu pai –, confesso que fiquei perplexo com o homem e sequer me dirigi a ele. Mas observei, mais de uma vez, a sua ânsia em abrir o refrigerador, parecendo que treinava antes de executar o feito. Tinha um apelido que não lembro mais, conhecido em toda cidade, fazendo-o reconhecido em qualquer lugar. Também, com aqueles trejeitos todos! O de Olinda não, era mais contido e menos famoso. Participava das rodas de conversa dos alunos do São Bento ou das bisbilhotices da mulherada do Santa Gertrudes, essas de seu especial agrado.
Parecido com essas figuras sociais locais – cada qual em seu lugar –, só aquele primo de certa namorada minha, a primeira de todas, nos meus 12 ou 13 anos de idade. Era assim, dizia-se, porque apanhava muito do pai. Levava pancada na cabeça e no resto do corpo todinho. É que o penitente, mais novo até que eu, tinha um cacoete incomum. Movimentava a cabeça com muita rapidez para a direita, fazendo em seguida o movimento de volta, ao tempo em que pronunciava as palavras mágicas: “Puta merda/Puta merda/Puta merda.”. Isso era horrível à época, pois o pudor marcava as relações e a moça ficava pra lá de encabulada com o primo, tal a vergonha que tinha. O de Olinda não, era figura mansa, sem jeitos e sem trejeitos agressivos. Capaz de participar de uma roda de fiar conversa por muito tempo. Nunca envergonhou ninguém!
Zé Ventinha era um personagem ímpar no bairro em que passei a infância, criatura que tivera uma lesão nasal, talvez devido à Leshmaniose, e que cuidava em obstruir aquela abertura patológica e nauseabunda com um algodão. Não tinha, propriamente, um hábito ou uma mania em particular, era um tique em seu todo. Um cacoete só! A meninada da localidade não descuidava de sua passagem e corria, às escondidas sempre, como quem vai espreitando a criatura, para lhe puxar o paletó na pontinha do tecido, com os dedos da mão em pinça, o indicador e o polegar. Era um horror! Zé Ventinha derramava-se em palavrões que só ele mesmo entendia e corria atrás do malfeitor. Levei muita carreira e o meu amigo – o bíblico –, tantas vezes falado por cá, também. No Umuarama ou no Varadouro o rapaz, pacato e sereno como era, não assustava ninguém, antes o contrário, era amigo dos amigos, sem pertencer a essa nova facção criminosa.
Esse olindense dos começos da cidade era interessante, pois fiando qualquer que fosse a conversa, interrompia, vez ou outra, o diálogo, levantava-se e fazia gestos que não se enquadram, até hoje, em ritual algum das liturgias conhecidas ou dos rituais de que se sabe. Era quase um nome do pai, como se adota na religião católica. A mão direita batia na canela da perna esquerda e depois no ombro desse lado. Em seguida, a mão esquerda batia na canela da perna direita e em seguida no ombro desse lado. Fosse eu conhecedor de ritos ou de liturgias, diria que era um nome do pai ampliado.
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